15.9.08


Sobre incenso, salmão, multa de trânsito e pêra importada

Que produtor em sã consciência usaria recursos da produção pra despesas pessoais (e supérfluas) e ainda colocaria os gastos na prestação de contas do filme?

Já faz tempo que eu me perguntava porque a LIC aprovava tanta bosta. Orçamentos milionários para filmes que ninguém ia ver - e que ninguém viu. Esse ano e no ano passado não foi diferente. Ta aí mais umas bostas-mais-do-mesmo que vão chegar aos cinemas e as salas vão ficar vazias. Sobretudo se houverem cenas como a da Araci tendo um ataque de flatulência… E quando parece que vão dar um tempo com os filmes 'de gauchismo' (não pelo universo, mas pelos roteiros nâo terem um pingo de originalidade ou mesmo empatia e envolvimento) é aí que vem mais uma meia dúzia.

Não bastasse essas bostas, agora eles fazem bosta com o dinheiro público que deveria ser usado pra fazer as bostas (os filmes). Como dá pra ver aí no video da materia veiculada pelo Jornal do Almoço, a meliante só não andou comprando quitutes de primeira, como botou na conta do filme o pagamento do IPVA e multas de trânsito!

Deseperador é saber que quem fez isso é a pessoa que responde pelo Conselho Estadual de Cultura, que opera a Lei de Incentivo! Não seria essa pessoa que, supostamente, deveria saber mais do que ninguém como é o procedimento legal?

Ta aí. Vou inscrever um projeto na LIC, então. Já falei com o Jardel pra gente co-roteirizar, inclusive. Trata-se de um dançarino de fandango dos Alegrete que vira um mercenário ensandecido. Ele bota Porto Alegre abaixo pra resgatar a filha sequestrada - a prenda mais formosa dos pampas. Ela foi levada por uma gangue de ginetes traficantes, comandados por um narcotraficante castelhano. Não vai se passar na Revolução Farroupilha, não. Vai se passar nos anos 80 com trilha dos Replicantes. Vai ter perseguição nos vagões do Trensurb filmada em plano sequência e um clímax com uma explosão no 11º andar de um prédio na Carlos Chagas. Todos os personagens urbanos serão interpretados pelos atores com o sotaque porto-alegrense exagerado, mesmo que isso comprometa a atuação.

No orçamento, já tô incluindo o pagamento do meu IPVA e do seguro obrigatório do ano que vem. Também pretendo comprar pêras importadas pro lanchinho. Não da equipe. Lá de casa. Tu aprova, né Mariângela?

Tem cheiro de bosta de cavalo chucro sobre os prados dos rincões do nosso Rio Grande, vivente! E nas salas de cinema também.



Despesas pessoais da presidente do Conselho Estadual da Cultura
apareceram na prestação de contas do filme
Concerto Campestre.

Juliano Carpeggiani ⎮ joneyuka@hotmail.com - 15:30


29.5.08


Veranico de Maio

Logo que chega o outono vem aquele frio aqui na Serra que faz doer a ponta dos dedos e deixa o nariz congelado. Ainda nem chegou o inverno e a única maneira de sair de casa de manhã cedo é deixando o pijama por baixo da calça jeans. Brrrr... Sem contar que o NPAV fica nos Alpes, bem no alto de Flores da Cunha, no Parque da Vindima - onde a temperatura é bem diferente dos mortais que vivem ali embaixo. Exageros à parte, no meio de maio chega aquele tradicional veranico, dando um soprito de verãozito.

E foi nesse veranico que recebi a missão de transformar 10 estudantes do colégio em diretores de fotografia. Uma gurizada de 14 a 18 anos que, em menos de dois meses, precisaria se dividir em equipes para gravar os 12 curtas do Astro – Festival de Cinema Estudantil de Flores da Cunha. Diferente de 2007, em que um profissional operava os equipamentos do NPAV pra gravar os vídeos, dessa vez a proposta é deixar 80% do trabalho nas mãos dos estudantes – a produção, montagem e finalização de som, continuam por nossa conta.

Para dar ao grupo noções de direção, decupagem e algumas técnicas simples de iluminação, o NPAV virou uma escola de cinema quase em tempo integral. A maneira mais fácil de começar o trabalho foi fazendo exercícios – primeiro de raciocínio e depois práticos. Antes de mais nada a molecada aprendeu as ferramentas que a linguagem audiovisual utiliza para contar uma história. Depois, a gente fez uma série de exercícios de decupagem usando roteiros dos filmes e dos programas de TV da Casa de Cinema de Porto Alegre. Cada grupo desenvolvia uma cena. No final, depois da apresentação dos alunos, a gente assistia o episódio, vendo como foram as opções usadas pelo diretor (trabalhamos desde Meu Tio Matou um Cara até o Bochecha).

Com o grupo dividido em dois, criamos dois mini-roteiros para que eles colocassem em prática o que aprenderam. Daí saíram dois exercícios: Melissa e O Roubo do Roteiro, que podem ser conferidos no You Tube.





Além dessa turma de alunos – que a gente chamou de “Programa de Qualificação Básica para Direção de Fotografia”, os grupos que desenvolvem os curtas da competição têm acesso livre ao NPAV. Para cada etapa das produções, o Núcleo se mantém aberto para fazer atendimentos individuais para cada produção, onde os estudantes podem discutir os roteiros, planejar os cronogramas de gravação e fazer exercícios com as câmeras e equipamentos de áudio. E disse o Jardel para a assessoria de imprensa quando chegou ao NPAV para começar a montar os primeiros curtas prontos: “Foi muito curioso chegar ao NPAV e encontrar estudantes de 15 a 18 anos usando em termos como ‘plano aberto’, ‘pan’, ‘travelling’ ou ‘raccord’, em conversas”. É 14 anos. Porque o Felipe, o caçula da turma, tem 14 (mas parece ter uns 17, é verdade).

E que venha o invernozito.


Juliano Carpeggiani ⎮ joneyuka@hotmail.com - 17:22


14.4.08


O blockbuster da Armelinda

Nenhum experiência poderia ter sido tão emblemática para um realizador em início de carreira quanto ver uma obra que produziu ser consumida. Depois de um ano do início dos trabalhos da série Vindima da Imagem (numa época em que ainda era chamada O Caminho para a colônia), os curtas do pacote que já estão finalizados foram para apreciação do espectador. Durante março e o início de abril aconteceu a mostra Safra 2008 – o cinema de Flores da Cunha, que teve 12 sessões pelo interior do município. Nessa mostra entraram cinco curtas: Porta el progresso e Vida na colônia, do Vinícius Guerra; Sabores de Armelinda, da Teresa Noll Trindade; ...eu te abençôo, vida. Eu te abençôo, do Daniel Fuentes e A Sinfonia de Suely, do Rafael Rech.

Foi então que alguns dos protagonistas dos curtas puderam ver-se pela primeira vez na telona. Caso da dona Armelinda Vailatti e do seu Raimundo Sandi, que são as figuras centrais dos documentários Sabores... e Eu te abençôo, vida, respectivamente. Foi aí que experimentei uma sensação inédita. Aqueles curtas que passaram esses 12 ou 13 meses na mesa de reuniões ou na ilha de edição agora tomavam outra forma, outro significado. Junto com uma platéia, os filmes deixaram de ser aqueles que eu conhecia e que trabalhei durante todo esse tempo e passavam a ser propriedade de quem assistia.

Mais uma vez - aliás, por repetidas vezes durante essas sessões -, foi emocionante ver a imagem do nono Gazzi, de pele bastante enrugada, cantando com voz rouca trechos de Mérica, Mérica em Vida na colônia. Ou com o poema mostrado em texto no encerramento de Eu te abençôo, vida enquanto ouvimos o ex-combatente da Segunda Guerra, o seu Raimundo, falar sobre uma trajetória de vida já cumprida. Final que por sinal, na sessão realizada na Linha 80 (localidade que o seu Raimundo têm bastante amigos), não foi aplaudido. Quando as luzes se acenderam, pode-se ver olhos úmidos e rostos marcados por lágrimas na platéia. E o silêncio.


Seu Raimundo Sandi, que lutou em solo italiano na Segunda Guerra Mundial
pela Força Expedicionária Brasileira (FEB), odeia os americanos da sua
geração. Por que? Veja o filme!


A grande surpresa foi Sabores ter se tornado um hit instantâneo. Já era de se esperar que o filme da Teresa fosse agradar ao público por ter explorado um tom de comédia. Parte dos méritos é a escolha da família onde o curta sobre gastronomia foi gravado (crédito para a pesquisadora Gissely Lovatto), já que a mãe, a Armelinda do título (uma verdadeira mama italiana, inclusive no fisic du role), e a filha Realda (que herda as características matronas da mâe), ficaram tão à vontade na frente das câmeras a ponto de revelar detalhes impagáveis da personalidade uma da outra. Logo nas primeiras sessões, os aplausos vibrantes atestavam a aprovação e a divulgação boca-a-boca acabou provocando uma mudança radical na programação da mostra.

A princípio, cada sessão era contemplada pela exibição de dois curtas, entre os cinco do programa. Com a repercussão de Sabores..., o curta passou a ser exibido em todas as sessões, mesmo as que não estava programado.

Na sessão do Travessão Alfredo Chaves (localidade que concentrou grande parte das gravações dos curtas – Vida na colônia, A Sinfonia..., Sabores... e o inédito Deus abençoe nosso lar), a sessão teve público de mais de 300 pessoas. Para dona Armelinda teve gosto de novidade. Já a família Gazzi havia visto o seu Vida na colônia em casa, quando o Vini foi mostrar pra eles. A família da Suely chegou bastante atrasada. A sessão eras as 19h, mas a Suely entendeu que era as 9. Pelo menos deu tempo de dar entrevista para a imprensa. Mas a família contou que já havia visto o seu filme – conseguiram uma cópia em DVD que ainda está mal explicada, diga-se de passagem. Hummm...

As matérias que saíram sobre a mostra podem ser lidas aqui. É só clicar na imagem para abrir os jornais aí embaixo.





Juliano Carpeggiani ⎮ joneyuka@hotmail.com - 09:26


29.3.08


Se é nele que está a verdade...

A idéia era que, após cada cena gravada com a participação das pessoas que encontrávamos pelo caminho, nós contássemos a elas que participaram de uma ficção e que na verdade os irmãos, Thiago e Letícia, são atores e nem sequer têm parentesco (veja mais sobre a sinopse de Vinho de verdade no post anterior). Ainda numa gravação teste, que fizemos na Praça da Encol em Porto Alegre, ficou evidente que a tarefa de revelar a verdade de imediato não ia ser algo agradável. No teste, que fizemos com o Thiago Prade e com a Roberta Savian (que seria a protagonista naquela época), os irmãos teriam que abordar pessoas quaisquer pela praça e dizer que estavam fazendo um vídeo em homenagem ao pai e que precisariam fingir que estavam na Itália. Coincidentemente, algumas das pessoas abordadas ou conheciam a cultura italiana, ou eram da Serra ou estavam fazendo curso de italiano.

Foi o caso de uma senhora que tirou da bolsa um livro do curso de italiano e começou a mostrar um mapa da Itália, falando naquele idioma, onde ela “morava” no país. O que aconteceu foi que, ao final da gravação, a mulher estava tão tocada pela história dos irmãos que fariam uma homenagem ao pai morimbundo, que começou a abraçar o Thiago e dizer “tu é o filho que todos os pais sempre quiseram ter”. Ficou impossível contar para a mulher a verdade. E assim foi durante as diárias. Nos três dias de gravação, foram poucas as cenas que seguiram o roteiro (são algumas das minhas preferidas, inclusive). A vantagem de ser um “falso-documentário” ou uma “falsa-ficção” se for o caso, é que os atores partiam da premissa e os lugares e as pessoas visitadas é que dariam o conteúdo às cenas.

Esse mito de que o vinho traz a verdade ganhou contornos ainda mais interessantes a partir do trabalho que eu e o Moisés começamos a desenvolver juntos quando definimos a co-direção. O curta absorveu uma profundidade muito maior, gerando uma discussão sobre a verdade e a farsa. Em alguns momentos, até com um grande peso na consciência - caso de uma cena em que os atores teriam que armar uma situação diante das pessoas que estavam participando da gravação, tentando criar uma reação nelas enquanto presenciavam tudo.



Gravamos em vinícolas de grande e pequeno porte, em vinícolas humildes e familiares. Quantos personagens interessantes pelo caminho. A equipe estava afinada e sintonizada. Talvez tenha sido o meu melhor set. Quanta comida! Quanto vinho! E quanto brut e moscatel. A co-direção, que me assustava um pouco, principalmente por ser o Moisés que tem um estilo diferente do meu, resultou numa parceria surpreendentemente complementar. E o trabalho com o Fernando Vanelli na direção de fotografia, que é o meu terceiro consecutivo com ele, deu o canetasso que essa dobradinha de conterrâneos ainda vai longe. Antes do curta, havíamos trabalhado em um VT comercial e num VT institucional do Roteiro Turístico da Melhor Idade.

A cereja do bolo foi a participação especial do Luis Paulo Vasconcellos, como o pai dos protagonistas. Nem é preciso falar do orgulho em ter trabalhado com um dos maiores nomes atuantes no cenário artístico no Sul. O Vasconcellos é a prova de que a humildade é dom só para os grandes de fato, os que tem cancha mesmo. Um gentleman.


FOTOS: www.flickr.com/photos/npavfloresdacunha


Equipe:

Direção: Moisés Westphalen e Juliano Carpeggiani
Roteiro: Moisés Westphalen
Assistência de direção: Tatiana Senna
Direção de fotografia: Fernando Vanelli
Assistência de dir. de foto: Rodrigo Góes
Som direto/ desenho de som: Rodrigo Marcon
Direção de produção: Vanessa Remonti
Produção: Juliano Carpeggiani e Vanessa Remonti
Produção executiva: Ivete Ascari e Juliano Carpeggiani
Assistente de produção: Rodrigo Neves
Eletricista: Leonel Ruiz (Cebola)
Montagem: Fabiano Cavalheiro

Elenco: Thiago Prade, Letícia Virtuoso e Luis Paulo Vasconcellos


Juliano Carpeggiani ⎮ joneyuka@hotmail.com - 19:37


15.3.08


Vinho de verdade

Faltam três dias para abrir câmera em Vinho de verdade, o curta-metragem sobre o vinho da série. Ou, como durante muito tempo foi chamado “Vinhos e vinícolas” ou simplesmente “o filme do vinho”. Desde a reunião que definiu os temas que iríamos trabalhar nos 12 episódios da série da União Européia, ficou evidente que este seria um dos curtas-metragens que mais receberia atenção. Não só por ser o principal produto da região, mas também por toda a mitologia e encantamento que o vinho tem.

Sempre foi pensado em fazer um trabalho que misturasse a realidade e a ficção. A princípio, o curta seria dirigido pelo Vinícius Guerra (Porta el progresso e Vida na colônia) e pelo Daniel Fuentes (...Eu te abençôo, vida. Eu te abençôo). Conforme a série ia andando, a co-direção passou a ser minha e do Vinícius, que chegou a trabalhar brevemente no projeto, quando encomendamos um roteiro ao Moisés Westphalen (que co-roteirizou o Zaratustra comigo). Com a ida do Vini ao Rio durante a pré do curta, tudo se encaminhou para que o Moisés assumisse a direção comigo. Antes, ele faria assistência.

Esse curta talvez tenha sido o mais complicado de começar a ser feito. Foi adiado uma infinidade de vezes pelos mais diversos motivos. O principal deles foi a mudança do ator que faria o protagonista para São Paulo e as mudanças consequentes que teriam que ser feitas no acordo do cachê que iam além das condições do orçamento. E pra não perder o costume, produção que é produção de vez em quando tem que ter um surto, algumas gritarias e ameaças de demissões.

Na história, um casal de jovens irmãos de Porto Alegre quer fazer uma homenagem ao pai que está muito doente. Como o pai é um apreciador de vinhos, eles vão à Flores da Cunha produzir um vídeo, mas vão tentar fingir que estão na Itália. O filme vai acompanhar os dois irmãos nessa viajem pelos parreiras e vinícolas no interior de Flores da Cunha. Exceto a equipe técnica, todas as demais pessoas envolvidas no curta não saberão que o casal de irmãos são atores. No caso, a Letícia Virtuoso e o Thiago Prade.

Estréia no inverno, junto com todos os outros 11 da série.

Juliano Carpeggiani ⎮ joneyuka@hotmail.com - 15:46


21.10.07


Bem-vindos ao País da Cocanha

Provavelmente esse seja o título do curta que eu dirijo sobre a vinda dos imigrantes italianos à região da Serra. O nome do projeto era Exodus, que sinceramente me agradava mais. Acabei optando por esse porque, durante a produção e mesmo a gravação do documentário, os assuntos acabavam convergindo para o "mapa da cocanha", uma imagem espalhada pela Itália na época da imigração, baseada em uma lenda européia. Segundo essa lenda, havia um país mitológico em que não havia trabalho e o alimento era abundante. Vivia-se entre os rios de vinho e leite, as colinas de queijo e leitões assados que ostentavam uma faca espetada no lombo. "Cocanha", segundo o critério de alguns analistas do comportamento social, também representou um símbolo para a cultura hippie nos anos finais da década de 60, que idealizavam um lugar onde todos os desejos seriam instantaneamente gratificados.



Como se trata da imigração, não queria repetir pela milésima vez a história de como eles saíram da Itália e como acabaram construindo um novo mundo aqui. Então, o que fizemos foi abordar muito mais o legado da cultura trazida, ainda presente hoje em dia. Nesse sentido, deparamos com duas palavras bastante repetidas: a fé e o trabalho. São esses dois pilares que definem a identidade cultural dos descendentes de imigrantes italianos.

Para ilustrar que essas raízes continuam vivas, resolvemos conhecer a vida de três famílias diferentes: a do casal Domingos e Giacomina Caldart (que moram na localidade de São Martinho, no interior de Flores da Cunha); a do agricultor Marino Baggio (do Travessão Bonito, no interior de Nova Pádua) e do Lucas Molon, de 12 anos (de Otávio Rocha).

A idéia era costurar essas histórias com a intervenção de historiadores renomados da região. Eram três nomes específicos, que durante semanas, a Letícia Friedrich, nossa diretora de produção, se esforçou para contatar e marcar as gravações. Aparentemente, dois desses historiadores agem como superstars da memória cultural local. E isso não é exagero ou birra da minha parte por não termos conseguido faze-los aceitar o convite. Eles realmente se comportam como celebridades. Uma das respostas que tivemos foi de que uma dessas pessoas já estava “cansada de dar sempre a mesma entrevista”. Ui!

O terceiro nome que nos interessava só foi contatado no domingo a tarde (um dia antes das gravações). Era o livreiro, ator, produtor cultural e fundador do grupo de teatro Miseri Coloni, Arcângelo Zorzi Neto. O Maneco estava no exterior e, por isso, só conseguimos convida-lo para o curta no domingo, quando ele voltou. Na segunda-feira, lá estava ele gravando conosco, na casa em que ele nasceu, no interior de Nova Pádua.

Acho que no fim das contas, vai ficar bem mais interessante do que se tivéssemos três pessoas falando sobre aquilo que estudaram ou ouviram falar. O que o Maneco fez foi dar um testemunho em primeira pessoa, contando aquilo que sabe porque os pais contaram ou porque vivenciou. Certamente vai fazer toda a diferença no curta. Até porque ninguém mais tem saco pra ver aqueles mesmos historiadores dando sempre a mesma entrevista.


Maneco e a pedra do reino

Para abrir o curta, estamos pensando em fazer uma animação. Enquanto vem a introdução em off do Maneco falando sobre o mapa da cucanha, a idéia é mostrar em desenho imagens da topografia do País da Cocanha e signos característicos da imigração italiana. A referência que estamos trabalhando é a abertura de A pedra do reino, do Luís Fernando Carvalho. Até a trilha está nos influenciando. O Elias Carpeggiani (meu primo) é quem vai fazer a animação.



Juliano Carpeggiani ⎮ joneyuka@hotmail.com - 11:38


7.5.07


Cinema, astronomia e estrada de chão

O Caminho para a colônia é a série de 12 curtas que eu estou produzindo no Núcleo de Produção Audiovisual (NPAV). Desde setembro do ano passado, quando o projeto da União Européia em instalar um centro de produção de cinema em Flores da Cunha de fato passou a se concretizar, as coisas foram acontecendo de forma absurdamente frenética. Eu ainda estava montando o Zaratustra - que por sinal, nem ficou pronto - quando o sinal verde foi dado e não seriam mais apenas idealizações, projetos e planos. Haviam prazos pra cumprir e uma produtora audiovisual de primeira categoria para instalar.

Grande parte disso está publicado aqui. Seria difícil imaginar, há quatro anos atrás quando eu saí de Flores da Cunha para entrar pra faculdade de cinema, que um dia, justamente na minha cidade, um projeto grande como esse estaria acontecendo. Logo que fui chamado pelos meus conterrâneos para assumir a coordenação, vi a possibilidade de chamar também os meus colegas para fazerem parte disso. E foi o que aconteceu.

Em janeiro e fevereiro passados, chamei o Vini (Guerra) e a Teresa (Noll Trindade) para desbravarmos o interior de Flores da Cunha e imaginarmos como seriam estas 12 produções em curta-metragem solicitadas pela União Européia. Desse processo de mapeamento até agora foram quatro meses. Quatro curtas já estão gravados: Gastronomia (da Teresa, que deve se chamar Sabores), Dialeto (do Daniel Fuentes, namorado da Teresa), Safra da uva (do Rafael Rech) e Vida na colônia (do Vini). Todos documentários. Só o safra da uva que tem uma estrutura de ficção. Embora seja filmado sem roteiro e sem indicações, a idéia do Rafael, que é montador também, é fazer do curta uma narrativa com estrutura de ficção.

Falando ainda mais em origens, parte do projeto da União Européia (que se chama VICTUR, do Programa URB-AL) também contempla a fomentação, instrução e produção dos curtas produzidos pela gurizada da Escola São Rafael para participação no Astro - Festival de Cinema Estudantil de Flores da Cunha, que já acontece há nove anos na cidade. Por acaso (ou não) eu tive significativa participação na criação do evento quando eu era presidente do Grêmio Estudantil da Escola, lá pelos idos de 1999. Minha gestão fez as duas primeiras edições. Vai, volta e vem. É quase poesia.

Agora me preparo para dirigir dois curtas: o Exodus e A que horas passa o trem?. Então, que de fato abram-se as portas do meu passado e que visitemos as origens.


Juliano Carpeggiani ⎮ joneyuka@hotmail.com - 16:48


24.8.06


Assim falou Zaratustra (parte 3)

Não considero João e a criação o meu primeiro curta. Foi mais um exercício, ainda na UCS. O roteiro não era meu e, sinceramente, até hoje eu não sei onde o roteirista queria chegar com aquela história. Zaratustra é o meu primeiro trabalho. Tão bom quanto escrever, decupar, fazer o storyboard e desenhar a arte é ver o set montado. Ahhhh, que emoção! E como foi bom ver a arte da cena do assalto no beco que montamos no estacionamento da Paróquia Santo Antônio, na Cidade Baixa (uma igreja ao lado do Bar Opinião). Estava tudo lá como nas histórias em quadrinhos: parafernálias de ferro, sacos de lixo aos montes, jornais, cartazes no muro, ventiladores velhos. Tinha até uma poltrona. E foi por duas vezes que erguemos esse set. A primeira vez, veio o temporal e a ventania derrubou tudo. O cronograma atrasou, os eletras disseram que não iriam trabalhar debaixo de chuva, um ator tinha horário pra sair, algum problema na câmera. Que bela merda, diria Nietzsche.

“É só um trabalho de faculdade”, dizem alguns professores. “Não fiquem pensando que esse vai ser o grande filme da vida de vocês”. Mas já que estou fazendo, então que eu faça o melhor que puder. E não foi fácil segurar aquela pane que deu no set. Ou rodava daquele jeito, às pressas, da forma em que as coisas estavam ou não rodava. Pra piorar, era a câmera 24p que estava com o cabeçote sujo e não gravava. Teria que rodar com a D35. Que bagunça. Cada um dizendo uma coisa diferente no meu ouvido. “Ta tudo caído, não dá pra fazer assim”, “É melhor que paremos mesmo, sem a 24p não vai ficar a mesma coisa”.

Liga pra Nice! Chegou a Flávia Seligman. Adiaram a diária. “Ele cancelou porque a 24p não funcionava”, disse um professor dias depois.

Ficou pro outro dia, com 24p funcionando. E como o inverno nunca falha em se tornar a primavera, lá estava o set em pé de novo, quando já era inverno. Algum tempo depois da primeira diária. O beco não era mais o mesmo. Havia algo estranho que não deixava ficar perfeito como a primeira vez. Mas não era a mesma tralha que a gente mandou vir lá do almoxarifado da Unisinos? A Vavá foi a primeira a perceber. “Pintaram o muro”.

Metade da diária para a cena do assalto na lavanderia, outra metade no estacionamento da igreja. Gravamos num domingo. A Lima e Silva lotada. Gravamos na Lav & Lev na frente do Zaffari. Primeiro gravamos os planos mais complicados, como o golpe que projeta o bandido para trás e ele bate com a cabeça na parede, fazendo um rastro de sangue quando ele cai. Bem depois é que veio a cena inicial. “Todo mundo parado sem dar nenhum piu, porra!”, berrava o assaltante vivido pelo Márcio Dias, munido de uma espingarda. Foi o que bastou para que as pessoas na rua acreditassem que era de fato um assalto e chamassem a policia. Essa não foi gravada em 24p. Mas ficou a foto.




Equipe:

Direção: este mesmo
Assistência de direção: Marcel Kunzler
Produção: Valentina Metzavah Cará
Roteiro: este e Moisés Westphalen
Direção de fotografia: Thomaz Scalzilli
Direção de arte: Vinícius Guerra
Montagem: Rodrigo Jonker
Som: Vitrola Domingues e Daniela Israel
Assistência de produção: Matheus Massochini, Victor Rypl, Stefany Winter, Rafael Onzi e Guilherme Pacheco
Assistência de direção de arte: Luciana Basegio, Leonardo Remor, Bárbara Lucin e Anna Carolina de Oliveira
Animação: Denny Chang e Rafael Rech
Eletricistas: Álvaro Leonardo, Tiago Benger, João Batista Bessa e Diego Benites
Coordenação de produção: Leonice Sordi

Elenco: Rafael Tombini, Janaína Kremer, Márcio Bueno Dias, Graziela Gallicchio, João Pedro Machado, Lufe Bolini, Helio da Silva, Vinícius Guerra, Alisson Joenck, Mariana Mantovani, Siomara Krankauer e Matheus Massochini


Fotos








Juliano Carpeggiani ⎮ joneyuka@hotmail.com - 16:27


27.7.06


Assim falou Zaratustra (parte 2)

CENA 1 - SET DO CURTA DO VINI - EXT/DIA

O celular vibra. Juliano atende.

TOMBINI: Juliano?
JULIANO: Eu.
TOMBINI: É o Rafael. Passei o roteiro pra Jana essa semana.
JULIANO: Mesmo? Como tu falou com ela?
TOMBINI: A gente fez uma leitura juntos, de um filme que o Fabiano (de Souza) vai fazer.
JULIANO: Poutz, que bom, cara! E ela te respondeu alguma coisa?
TOMBINI: Ela me ligou agora.
(silêncio)
JULIANO: E ai???
TOMBINI: Ela pediu pra te passar o número dela.
JULIANO: Cacete!
TOMBINI: Ela vai fazer, cara. Disse que curtiu o roteiro. Chamou de 'noir' moderno. Liga pra ela agora!

Apesar do João e a criação (2002) ter sido a minha primeira experiência como diretor, Zaratustra é que tem aquele gostinho de primeiro curta. A produção é mais profissional e os atores são de primeira. Gravamos a primeira diária. Foram só os flashbacks com a participação da Janaína. Agora temos que esperar a barba do Tombini crescer para fazermos as cenas que se passam no tempo corrente.

Aí estão algumas fotos still da primeira diária.

Zaratustra - Foto 01 Zaratustra - Foto 02 Zaratustra - Foto 03 Zaratustra - Foto 04 Zaratustra - Foto 05

Juliano Carpeggiani ⎮ joneyuka@hotmail.com - 12:28


19.6.06


Assim falou Zaratustra

Queria fazer um musical. Algo como It`s oh so quiet do Spike Jonze. Mas quem não queria? Fica pra próxima. Em 35mm. Bem bacana.
Também queria fazer um filme de histórias em quadrinhos mas num mundo real. Nada a ver com Corpo Fechado. Mais a ver com Watchmen - super-heróis humanos num universo real. Mas não era bem isso que eu imaginava.

Pensei em algo mais chocante ainda: um super-herói, numa cidade real, que descobre ser personagem de uma história em quadrinhos. Então ele começa a questionar o destino, a vida, os "coadjuvantes"... O cara entra numa pilha e começa a contrariar tudo aquilo que acha que é o seu destino.

O nome desse cara é André e ele vai ser interpretado pelo Rafael Tombini.

Para o papel da Júlia, a mulher do André, escrevi pensando na Janaína Kremer (O Sanduíche, O homem que copiava, Era uma vez dois verões, todos do Jorge Furtado). Vou tentar fazer o roteiro chegar até ela. Quem sabe.

Enquanto isso, shhhh... shhhhh......


Juliano Carpeggiani ⎮ joneyuka@hotmail.com - 01:24


18.6.06


palavras nunca ditas e publicadas no Portal 3

Não é a primeira vez que dou uma singela entrevista à um veículo de comunicação e em seguida são publicadas palavras que eu nunca disse. Recentemente, durante o acontecimento do CineEsquemaNovo em Porto Alegre, uma estudante parou o Rafael e eu na saída do Centro 3, para fazer algumas perguntas sobre o festival. Eis a matéria publicada (clique aqui). Vejamos: primeiro que eu jamais iria me referir ao CineEsquemaNovo como "baita espetáculo". Não que não seja um baita-alguma-coisa mas, definitivamente, não se trata de um espetáculo. "Vamos conferir até mesmo os vídeos amadores e universitários" foi mais uma frase inventada pela estagiária. Se eu tivesse dito tal coisa, eu seria uma besta. O que eu iria conferir no festival se não os vídeos amadores e universitários, se é só o que o festival exibe? Por favor. Pelo menos, ficou um resto de veracidade da minha contribuição à entrevista: "Isso valoriza o que é feito na universidade", pois eu explicava que via o festival como o melhor veículo do Estado para exibir as produções universitárias e amadoras. E, de fato, também disse que "A troca de informações, até mesmo entre universidades, é muito importante", mas a informação foi retalhada, já que eu comentei sobre os seminários que foram feitos na primeira edição do evento, em 2003, e mencionei que deferiam haver fóruns e atividades que promovessem um intercâmbio entre estudantes de cinema do país. A matéria está bem boa, de uma forma geral. Uma pena quando a repórter inventa declarações.

Triste mesmo foi outra publicação do Portal 3, ainda no meu primeiro ano do curso. Aqui está a pérola que foi veiculada em 2003 e está até hoje online (clique aqui). Eu estava encantado uma pinóia. Lembro que a palestra foi interessante, mas escrever que estava 'encantado', ainda mais com aquela foto besta, foi dose. Parece gozação! E convenhamos, "A aula foi fantástica, achei muito legal eles terem vindo aqui falar sobre a televisão", é uma frase típica de estagiário que não anotou bulhufas do que o entrevistado falou e teve que inventar algo na hora de redigir a matéria.


Juliano Carpeggiani ⎮ joneyuka@hotmail.com - 18:24

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